A Poética do Luxo: A Era Joãozinho Trinta e Laíla
Dando um grande salto, ou melhor, um grande voo na história, pousamos no ano de 1976, quando os insatisfeitos da Academia do Samba, o Salgueiro, Laíla e Joãozinho Trinta resolveram sair da agremiação e ingressar no ninho da escola de Nilópolis. A partir daí, a épica história de glórias da escola começa a se traçar.
Crias de Arlindo Rodrigues, grande carnavalesco com um estilo estético-visual barroco, com prumo, criatividade e luxo inserido numa só excelência de desfile, não teria como um grande gênio nascer dessa “máquina” ambulante de fazer carnaval. Com o enredo Sonhar com rei dá leão, os nilopolitanos entraram em euforia; a Beija-Flor é campeã do carnaval carioca, falando sobre o jogo do bicho, Joãozinho Trinta impressionou com o luxo e acabamento assíduos das alegorias, que era até então eram atípicos para época. Não bastava só ter plumas, brilho e cor. Tinha de ter luxo, glamour e uma bela plástica, marcas de um carnavalesco que conseguiu não só quebrar a hegemonia das potências carnavalescas formadas pelo quarteto Mangueira, Portela, Salgueiro e Império Serrano, como também emplacar um tricampeonato. Voos para o estrelato, o céu não era o limite. A agremiação ficou conhecida como “escola do luxo” e iniciou o processo de verticalização das escolas, através de grandes alegorias e dos adereços de mão.
O gênio João disparava suas magníficas e polêmicas ideias e fazia da Beija-Flor um “bicho papão” do carnaval carioca. Os adereços de mão – um complemento das fantasias – deram a plástica do desfile, um efeito mais dinâmico e luxuoso, porém uma volumetria que dificultava, geralmente, o desempenho do componente. O pássaro voava junto com o gênio ao Sol da meia-noite (1980), visitou a Grande constelação das estrelas negras (1983), participou de uma partida de futebol em 1986 em Um mundo é uma bola, carnaval vice-campeão que impressionou mais uma vez pela criatividade, prumo no acabamento e diversificação de materiais na confecção das alegorias e fantasias, a chuva tratou de lavar a alma da escola e emocionar a Marquês de Sapucaí – a tão conhecida passarela do samba onde ocorrem os desfiles desde 1984 - mostrando que o coração de Nilópolis batia mais forte, o pavilhão é a contemplação e o samba é a estrutura da comunidade. A Beija-Flor fez a Sapucaí chorar, aplaudir e ser um coro de sentimentos pouco vistos em desfiles de escolas de samba.
Glória a quem trabalha o ano inteiro, em mutirão são escultores, são pintores, bordadeiras, são carpinteiros, vidraceiros, costureiras, figurinista, desenhista e artesão, gente empenhada em construir a ilusão (...). (Pra tudo se acabar na Quarta-Feira, Martinho da Vila – GRES Unidos de Vila Isabel, 1984).
O gênio já delirava, o luxo subiu à cabeça é só fez bem e o lixo glamoroso tomou de conta da passarela do samba, já em 1989. A epopeia: Ratos e Urubus, larguem minha fantasia; o criador: Joãozinho Trinta... O luxo do lixo impressionou o público, ricos e pobres juntos e misturados, pois o “samba não tem preconceito” já dizia o samba da Vila Isabel. O impacto: a realidade descrita com mãos de ferro, a crítica social a um país que engatinhava com a nova Constituição, mas que já era impregnado a tal da desigualdade social e ainda tinha as marcas de uma ditadura inesquecível... Mas inesquecível mesmo foi aquele desfile; quem diria que o Cristo Redentor faria parte da história, mas como o delírio não é de qualquer pessoa, Joãozinho Trinta resolveu trajar aquele que vive no Corcovado, tocando o céu com trapos sujos: era o “Cristo Mendigo” que fora proibido e coberto de preto, mas frase falava por todos “Mesmo proibido, olhai por nós”. A epopeia foi inspiração para um samba que se tornou o grito de protesto daqueles que estavam sendo reprimidos pela indiferença. Os versos marcavam e contemplavam a bela voz de Neguinho da Beija-Flor:
(...) Sai do lixo a nobreza, euforia que consome, se ficar o rato pega se cair urubu come. Vibra meu povo, embala o corpo a loucura é geral (é geral), larguem minha fantasia, que agonia, deixem-me mostrar meu Carnaval (...). (Samba-enredo 1989 GRES Beija-Flor de Nilópolis; Compositores: Betinho, Glyvaldo, Osmar e Zé Maria).
As estruturas do barroco luxuoso, trabalhado no dourado, com requinte e acabamento impecáveis e as roupas sujas, velhas com trapos pendurados fizeram parte de uma antítese, a estética mais inovadora e impactante daquele ano. Mas adivinhem o carnaval de Joãozinho não fora campeão. As “Asas da liberdade” da Imperatriz Leopoldinense levou a melhor, porém a voz do povo era de “Beija-Flor campeã!”, mesmo ficando no segundo lugar do pódio, o enredo foi considerado como o desfile do século pela crítica, e quando o gênio diz que “O povo gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual”, é porque a voz do povo realmente é a voz de Deus. O pássaro de Nilópolis havia novamente conquistado a Sapucaí. Mas em 1992, Joãozinho Trinta deixa a agremiação com gosto de quero mais, ele havia se tornado a cara da escola. Todavia, o pássaro não poderia parar de voar, E o carnaval já caminhava para uma nova época: a da competitividade assídua, o regulamento foi se enchendo de “trololós” e deixou os desfiles das escolas de samba como um exército, cheio de regras e se as agremiações não obedecessem seriam punidos e o castigo: a perda do título.